Acusado de mandar matar freira se entrega O fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de mandar matar a missionária americana Dorothy Stang em Anapu, no dia 12 de fevereiro, se entregou na manhã de ontem à Polícia Federal e a homens do Exército em Altamira, no sudoeste do Pará, depois de ficar 42 dias como foragido de Justiça. ‘Sou inocente, não tenho nada a ver com esse crime’, disse Bida, protegido por um forte esquema de segurança.

Ele alegou que se apresentava para ‘provar’ sua inocência, mas não quis dizer onde ficou escondido. Aparentando tranqüilidade, Bida em nada se parecia com o homem ‘abalado e deprimido’ pintado dias atrás por seu advogado, Augusto Septímio. A apresentação, segundo a PF, foi negociada pela Comissão do Senado que investiga o assassinato da missionária.

Em Belém, para onde foi levado, Bida prestou depoimento ao delegado da PF Ualame Machado, negando ter encomendado a morte da freira. O fazendeiro se considera vítima de uma trama dos pistoleiros Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, e Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo. E garante que não tinha interesse em mandar matar Dorothy, embora se dissesse ameaçado por agricultores por ela liderados em Anapu.

Para que ele se entregasse, a PF montou uma operação sigilosa, que envolveu seus agentes e o Exército. Bida não queria aparecer em Altamira e mandou um recado por seu advogado a três delegados da PF, avisando que aguardava a presença dos policiais em uma estrada vicinal do município. Um helicóptero do Exército levou os policiais ao local e lá Bida recebeu voz de prisão.

O delegado Waldir Freire, responsável pelo inquérito, disse não ter dúvida sobre o envolvimento do fazendeiro no assassinato da missionária. Freire anunciou que vai interrogar Bida e apurar a suposta existência de um consórcio entre políticos e empresários da região sudoeste do Estado para pagar o assassinato de irmã Dorothy.

O pistoleiro Fogoió se queixa que dos R$ 50 mil a ele prometidos pelo intermediário do crime, o capataz Amair Feijoli da Cunha, o Tato, também já preso, recebeu apenas R$ 50 para fugir após praticar o crime.

Ao ser informado pela PF sobre a prisão de Bida, o juiz de Pacajá, Lucas do Carmo de Jesus, decidiu antecipar o depoimento do fazendeiro de amanhã, para hoje, provavelmente à tarde.

GRILAGEM

Bida é um grande criador de gado de corte em duas fazendas que ocupam área de 3 mil hectares, em Anapu. No ano passado ele foi apontado pelo Incra como ‘grande grileiro’, em relatório de inspeção feito pela autarquia.

Indiciado pela polícia por homicídio qualificado pela morte da freira, Bida é, segundo a polícia, um dos homens que fizeram fortuna com a prática de grilagem no Pará. Depois do crime, ele perdeu um dos três lotes, que foi repassado ao Incra para o assentamento de 90 famílias, que vivem na área onde a missionária foi assassinada. A emissão de posse, garantida pelo Tribunal Regional Federal de Brasília, é provisória. O fazendeiro tem direito de entrar com recurso contra a decisão. Segundo seu advogado, ele comprou a terra por R$ 600 mil, em agosto, e teria registrado a escritura em cartório. Mas a documentação é precária e as terras são disputadas judicialmente com o Estado e com a União.